De onde estou, eu vejo o mundo
Vasto, limpo, imundo mundo.
E se eu também fosse Raimundo
Nada disso mudaria.
Eu vejo pela TV.
Uma faca corta a noite.
Uma bala desgovernada
Se perde num pobre peito
Que ia apressadamente...
E agora não vai mais.
Eu vejo e quero gritar.
No entanto, diante da dúvida
Vou resmungando estes versos
Como quem grita e pragueja.
E quando o silêncio surge
Como uma lâmina afiada
E corta meu coração
Deixa escorrer uma esperança.
Esperança que outro louco
Que também grita em silêncio
Escute o meu grito rouco
E o prolongue, além da noite.
E a força que aperta o peito
Antes que a lágrima apareça
E os corpos que se projetam
Contra a força e a tirania.
E as vidas que se entregam
Com graça e com poesia
Escutem o meu grito e gritem
O seu grito, além da noite.
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