Com o tempo, uma cidade
Deixa de ser moradia.
Perde as feições inorgânicas
E se transforma em pessoa.
Ganha braços tortuosos
Que se esticam nas ladeiras
E bruscamente se dobram
No abraço, chamado esquina.
Ganha nódoas pelo corpo
Na pele escura do asfalto
E chora pelos riachos
Rio abaixo, nas coxias.
Com o tempo, uma cidade
Deixa de ser moradia.
Ganha pulmão, ganha tosse
E cospe embaixo das pontes.
Nas noites de desespero
Pode-se ouvir os seus gritos.
E quando a dor é de morte
Canta nas praças, nos bares.
Na pedra dura das ruas
Onde o asfalto não vai
Guarda em desenhos de sangue
A lembrança de seus sonhos.
Às vezes, se vê estranha
Quase não se reconhece.
Uma cidade é um homem
Com as feições de mulher.
Com um tempo, uma cidade
Já não sabe mais quem é.
Vagueia, escorre e se esconde
De si mesma, enquanto morre.
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