Não cantarei os barões
Nem armas, nem travessias.
Meu verso dirá da saga
De um João qualquer de Maria.
João foi escravo, foi servo
Lutou em circos, foi guia.
Guia da vontade alheia
Que o seu querer suprimia.
Morreu em muitas batalhas
De Roma até Normandia,
Do Oriente a Canudos
Sem saber porque morria.
Morreu, mas ressuscitou
Depois de dois ou três dias.
Hoje está em qualquer parte
Onde a força oprime e mata
A vida que o amor cria.
Constrói bombas em Beirute,
Pede esmola em Canindé,
Bate carteira em São Paulo
Vende maconha no Rio
Invade terra e tem fé.
João tem mulher, tem filhos
Razão da sua existência.
Domingo enche os estádios,
Bebe cachaça, enlouquece,
Chora e, às vezes se mata.
Às vezes, faz poesia.
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