Quando menino, eu tinha muitos amigos
E um deles era especial.
Filho de um carpinteiro, seu José, e de uma linda senhora chamada Maria.
Sempre estava no futebolzinho improvisado no terreiro de casa.
Ia comigo para a escola, me acompanhava na hora de dormir.
Até nos meus sonhos, era presença certa.
Tinha uma história linda: nascido numa estrebaria, era pobre também.
Uma estrela brilhou no céu só para iluminar o seu nascer.
Depois, ele já grandinho, fugiu com a família de um rei malvado que matava crianças.
Foi para um país distante, num jumentinho mágico.
Na fuga, escondeu-se embaixo dos mufumbos e os soldados não conseguiram pegá-lo.
Quando cresceu, ajudava seu pai na carpintaria.
Sabia também falar dos mistérios da vida e todos ficavam impressionados.
Eu sonhava em ser igual a ele.
Com o passar do tempo, meu amigo foi mudando e eu fui mudando...!
Um dia, sem que eu notasse, havíamos nos transformado.
Ele já não era um, fazia parte de uma trindade.
Seu José já não era seu pai e sua mãe, coitada, já não podia chamar-lhe de filho.
Hoje, quando vejo uma criança correndo
Com a cara suja de barro e os pés no chão,
Pulando nas poças d'água que a chuva acabou de deixar...
Sinto saudades do meu amiguinho, como era, naquele tempo.
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