Quando pequeno, eu escrevia muito.
Cartas de encomenda, minha mãe ditava e eu modificava
Conforme as lições de D. Raimundinha.
Contei histórias de viagens que nunca fiz.
Depois comecei a escrever "coisas."
"Esse menino escreve coisas que deixam a gente pensando."
Eu ainda acreditava que tudo vinha de Deus.
Rezava pedindo inspiração
E cantava na missa do domingo.
Segui esquecendo algumas verdades e descobrindo outras.
Descobri, por exemplo, que padres e freiras sentem desejos
E que as mulheres fazem uma cara estranha quando gozam.
Comecei a gostar de ficar sozinho e passear no cemitério, lendo túmulos.
Vi também, pela primeira vez, a presença da morte.
Junta-se tudo: remédios pela metade, roupas, fotografias, vasilha de cuspir...
Faz-se uma fogueira só.
O fogo solta um cheiro de carne assada.
Descobri que as palavras são irreais.
O que existem são homens, montanhas, rios, pedras, passarinhos...
Usamos as palavras por não podermos carregas essas coisas.
Fico horas inteiras olhando o mar, ou as nuvens, ou lendo um livro.
Pois o que vejo não são palavras.
São nuvens, dragões, montanhas, sentimentos, ondas..., coisas.
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