Não há remédio para a dor desta tarde,
assim como não há salvação para a vida.
As bombas explodem ao redor do mundo,
os corpos, despedaçados, acumulam-se nas praças
e um tédio universal cai sobre nós.
O tédio está em nós.
Na nossa falta de ar,
na nossa falta de forças,
na nossa falta de sonhos.
Em vão, os lutadores, os covardes, os desesperados...
Em vão, os mártires e os malfeitores.
Ainda há os que usam cremes,
os que passam gel nos cabelos
e tomam pílulas para enlouquecer.
Tudo inútil, assim como nada.
Por um tempo, achei que poderia vencer.
Treinei para a luta.
Fiz exercícios, aprendi táticas de combate,
li os livros da arte da guerra...
Tudo inútil.
Hoje, sei que a derrota é certa.
Se eu soubesse antes, não me cansava tanto.
Se eu soubesse antes, nem sequer nascia homem.
Nascia um cão, talvez,
ou um ser abissal, estranho.
Assim, não me iludiria com a beleza desta tarde.
Desta tarde, imprescindível, linda e inútil.
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